quarta-feira, 15 de junho de 2011

Doenças - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego


Nesses tempos em que o tempo se media mais pela luz do sol do que pelos relógios escassos que mais serviam para enfeitar, havia pouco vagar para estar doente. A prevenção das doenças fazia-se intuitivamente e o mais importante era não ter fastio e dar dois ou três arrotos depois da refeição para haver a certeza de que estava a fazer bom proveito. A variedade de alimentos que a terra dura produzia encarregava-se de fortalecer o corpo que, pelas energias dispendidas, se negava a acumular gorduras. A comida requentada, fosse soro, batatas, caldo, feijão, favas ou grão, mesmo à ceia, se digeria e, se durante a noite causasse alguma azia, não era coisa que tirasse o sono a corpos moídos. O dizer presunçoso de um cavador afirmava que tinha um estômago tão rijo que, se as comesse, até pedras desfazia…

Não obstante, quando os males apareciam, porque ninguém era de ferro, as interpelações surgiam imbuídas de enigmas profanos e sagrados levando à ponderação sobre a finitude de quem padecia.

Quase sempre sem explicações plausíveis, ocorriam mazelas que a sabedoria popular dos mais velhos se encarregava de tratar. As dores nas cruzes, o reumático, a ciática ou a espinhela caída eram fruto do tempo ou de mau jeito que uns panos quentes ou o dependurar numa porta acabavam por sanar. Os resfriados, por norma, eram causados pela frieza das águas dos poços, nas regas de madrugada ou pela chuva enxugada na roupa das costas quando não havia cabana que servisse de abrigo. Nada de monta, que uma caneca de aguardente e uma suadela debaixo do cobertor de papa, numa noite, não resolvesse. As constipações, no longo Inverno, com tosse e espirros, eram mais más de aturar. O ranho no nariz obrigava a andar sempre com lenço no bolso, enrodilhado e pegajoso, sem ter ponta por onde lhe pegar. Os homens ajeitavam-se a tapar uma narina e a expelir, para o chão, as secreções. Mas, o avental das mulheres, se bem que aparasse os pingos do nariz, não contemplava uma constipação a sério. O mais incomodativo era, na verdade, durante a missa de Domingo quando, a meio do sermão ou a erguer a Deus, os ataques de tosse afluíam e se propagavam sem parar. Os olhares desviados, concentrados nos rostos congestionados e envergonhados, geravam mal-estar a ponto de, embora contrariada por perder parte da missa, uma velhota que sofria de asma, volta e meia ter que sair para o adro para tossir e esvaziar os canais. Quando a tosse abrandava, e retomava o lugar, sussurrava para ambos os lados, no banco corrido e apertado, o possível motivo do achaque, as colheres de mel que já tinha tomado no chá de casca de cebola com aguardente e tudo e que, na cama, durante a noite, ainda era pior, com febre e suores frios.

As dores de cabeça e de barriga eram mais propícias às mulheres que, para além do incómodo, sabiam que o mal e o bem à face vem. Deitavam mão aos taleigos onde guardavam as ervas milagrosas, secas à sombra durante o Verão: as barbas de milho, a tília, as flores de sabugueiro, a erva cidreira, a erva de São Roberto, os poejos, a hortelã, os pés de cereja e aos pachos ( panos embebidos num líquido) que faziam sempre bem. Da comichão feminina e líquidos amarelados e mal cheirosos a ponto de se ter de usar calças (cuecas) todos os dias, só em segredo se faziam queixas e se aconselhava a lavagem, por baixo, com água fervida com malvas que em qualquer canto se apanhavam. Fosse pelas qualidades terapêuticas da planta, fosse pela limpeza a fundo, o ardume ia passando e reaparecendo e cada um sabia de si e Deus sabia de todos. Recomendava-se, no entanto, usar meias nos dias do período menstrual, mesmo em pleno Verão, pois convinha haver resguardo. Ir ao médico estava fora de questão. Era o que mais faltava! Mostrar as partes íntimas a um homem se nem os maridos nunca as tinham visto nuas! Casos houve em que a honradez degenerou em mal ruim e nem os médicos da Guarda e de Coimbra lhes atalharam o mal.

As dores de dentes sobressaíam pelo inchaço da face e não havia bochecho de aguardente que as detivesse. O lenço da cabeça, nas mulheres, atado atrás do pescoço, sempre aconchegava e disfarçava um pouco, mas atrapalhava o falar. Adiava-se o arrancar, à espera que passasse, não pela falta dos dentes, mas pela dor, a sangue frio. Na aldeia, ninguém se atrevia a isso e o dentista, em Celorico da Beira, tinha uma cadeira, alicates e a mulher que, agarrando quem se sentava, fazia de anestesia. Mais importante que ter muitos dentes, era ter em que dar ao dente.

Os furúnculos, mais frequentes nos homens, apareciam no pescoço, nas costas e nádegas, para não falar das virilhas, com sinais evidentes de infecção e sabíamos serem dolorosos por ouvirmos dizer, se bem que dos carbúnculos ( aglomerados de furúnculos), dissessem não se desejar ao pior inimigo. Era feio de ver, aquele montito de carne avermelhada coberto de pus que, quase sempre, tinha que ser espremido ou lancetado e deixava cicatriz.

As feridas provocadas por espinhos, queimaduras, mordeduras de cães ou infecções ligeiras, lavadas com sabão azul e desinfectadas com álcool ou vinagre depressa criavam crosta, com a ajuda da sugestão de que o que ardia curava. A não ser as da Ti Maria da Luz que, besuntadas com petróleo e enfaixadas em jornal, pioravam a olhos vistos. A culpa foi da panela de ferro que fervia ao lume que, por ter só duas pernas e meia, lhe havia de causar tais trabalhos quando se virou e lhe queimou as mãos.

Para as nódoas negras provocadas pelo sangue pisado, o remédio vivia dentro de um frasco e suscitava a nossa apreensão sempre que a senhora Maria Gomes se prontificava a fazer o curativo a quem dele necessitasse. Cuidadosamente, colocava uma sanguessuga sobre a parte arroxeada e esperava que a bicha inchasse e a pele clareasse. Nós, a garotada que acudia às soleiras das portas, balcões de granito e outros sítios onde houvesse gente, dava fé de tudo. Olhávamos, de boca aberta, sentíamos arrepios e encolhíamo-nos a desejar que nunca, em parte alguma do nosso corpo, nenhum ser vivo nos sugasse. Nessa idade, em que só a dor física existia, não poderíamos sequer imaginar que havia também as dores da alma e que esta podia ser mordida e sugada, esfrangalhada, a verter o sangue que não tinha.

Ainda bem que, de tempos a tempos, passava pela aldeia aquele homem de saco às costas, a apregoar “ quem merca as bichas”! Na ribeira também as havia, mas deviam ser preguiçosas ou ter outro defeito qualquer pois, dizia-se, utilizá-las para o efeito, não adiantava nada.

Casos mais graves, como hérnias, apendicites, úlceras no estômago que faziam vomitar borras de café, surtos de tifo, ataques repentinos ou aqueles casos de se cair redondo no chão, iam parar ao Hospital de Celorico da Beira ou da Guarda. A notícia espalhava-se e a obrigação de visitar os enfermos fazia largar os afazeres. Como não se podia aparecer na hora da visita com as mãos a abanar, compravam-se bananas e bolacha maria que cobriam o tampo da mesinha de cabeceira do quarto do Hospital. Algumas vezes nos levaram. Nos corredores, o silêncio impunha-se em cartazes com dedos indicadores colados a bocas fechadas, portas abertas deixavam ver camas alinhadas e cabeças despenteadas.

- Se procuram alguém da Jejua, é ali.

Não gostávamos, já ninguém vivia na Jejua, mas sabíamos que a gente de Celorico nunca nos perdoaria que o nome da nossa pequena aldeia começasse por Vila.

Refinava o cheiro estranho que as nossas narinas desconheciam. A cor branca dominava tudo, como os nevões de Inverno: as paredes, as portas, as camas, os lençóis, as colchas, as enfermeiras e até os rostos dos doentes nos pareciam esbranquiçados…A única pincelada colorida que deveras prendia o nosso olhar, eram os vários verdes das bananas, algumas já amarelas e com pintas castanhas e as cores dos pacotes cilíndricos das bolachas. De nada mais nos lembramos a não ser de uma voz alquebrada a dizer:

- “Dêem-nas às crianças, acabam por se estragar”…

A fruta variada que comíamos, maçãs, peras, ameixas, figos, pêssegos, cerejas, amoras, morangos, uvas, melão e melancia, não saciava a nossa fome de bananas que, por serem compradas, rareavam como as bolachas. Constatamos depois, com o passar do tempo, que há fomes más de passar e, ainda hoje, meio século volvido, as bananas que comemos ou não queremos comer se assemelham aos desejos adiados que nunca mais são satisfeitos…

A pequenada foi corrida a eito com surtos de sarampo e varicela que, por se pensarem só à flor da pele e inevitáveis nessa idade, não davam cuidados de maior. No primeiro caso, a vermelhidão do corpo era tapada com um pano vermelho e metiam-nos na cama, ao escuro, durante alguns dias. A febre pouco incomodava, mas era um suplício permanecer assim horas a fio! Às escapadelas, sem ninguém em casa, saíamos da cama e espreitávamos pela janela até sentirmos o ruído dos gonzos da porta…

A varicela, com aquelas erupções avermelhadas, pintalgadas com mercurocromo, dava-nos um ar apalhaçado mas fazia uma coceira de morrer! Quanto mais nos diziam que coçar deixava marcas, maior era a comichão…

O trasorelho ( papeira), constituía, nos rapazes, um problema sério que, caso descesse, podia comprometer o desempenho sexual na vida adulta e obstar à descendência…

Aparentemente inofensivas, eram as lombrigas que facilmente sucumbiam a umas goladas de chá de erva dos burros que cresciam junto aos muros; assim como as diarreias que rapidamente eram controladas com umas colheres de farinha dissolvidas em água com um pouco de açúcar que bebíamos com agrado.

Aos piolhos e camadas de lêndeas ninguém escapou. O primeiro alerta vinha da escola, quando a mão direita escrevia e a esquerda enfiava os dedos na nuca, sítio onde os parasitas achavam melhor cama. O pente duplo, impotente para retirar a criação, deixava que fazer às mães que tinham que catar os filhos um a um. Mas nós achávamos graça, riamo-nos e virávamos a cabeça, de olhos fechados, no colo das mães.

Como vai longe esse tempo!

Os piolhos voaram, não gostam de cabelos brancos…mas continuamos a sentir, junto à raiz dos nossos cabelos, as mãos mais meigas da nossa vida…

Atrevemo-nos a chamar doença às tareias que algumas mulheres levavam e as obrigavam a ficar de cama, com cabeças partidas, cabelos ensopados em sangue e nódoas negras pelo corpo. Ouvíamos na rua o espalhafato e os gritos resultantes de vinho e maldade. Esperta foi a mulher de um tal fulano que, já entrado na idade e só pele e osso, mas viciado em aguardente e mau de aturar, caiu à cama. Ali permaneceu bastante tempo, sem nunca lhe faltar a garrafa à cabeceira. Certa vez, a mulher, ao dar os pêsames a outra que acabava de ficar viúva, teve este desabafo:

- “Você já está descansada, já o lá tem…agora eu”…

De outras enfermidades encobertas algumas pessoas se julgavam acometidas como justificação dos azares da vida. Perdida a esperança nas mezinhas caseiras, por de dores físicas não ser o caso, havia que atalhar o mau olhado, os males de inveja ou o quebranto. Preparavam-se os defumadouros com algumas ervas aromáticas, sempre em número ímpar:

. Cinco grãos de sal.

. Cinco bocadinhos de alecrim.

. Cinco pingos de azeite.

Espalhava-se tudo sobre brasas, para fazer fumo. Em seguida, benziam-se e diziam a reza apropriada:

“ Eu te defumo para o mal te tirar e Nossa Senhora fumou o seu amado Filho para bem cheirar. Pai Nosso e Avé Maria.”

“O alecrim é bento, o alecrim é santo. Assim como é bento e santo, tira as pragas da inveja, agouro e quebranto. Dois o deram, três o tiraram e são as três pessoas da Santíssima Trindade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Pai Nosso e Avé Maria.”

Em recolhimento, à luz ténue da candeia, as mulheres iam repetindo as rezas a olhar as brasas que se iam transformando em cinza e o vazio do fumo que já tinha desaparecido.

Poderemos desconhecer em nós marcas doentias vindas da infância que, de algum modo, tenham condicionado os nossos comportamentos ao longo da vida. Do que não duvidaremos jamais é desta necessidade premente que, de corpo e alma, nos faz recuar no tempo, reviver tudo e querer voltar a esse mundo maravilhoso da infância a que o tempo nos fechou as portas.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Rio Mondego - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

Águas do Rio Mondego
Passam a vida a correr
São como o tempo da infância
Que nada pode deter...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Brincadeiras de infância - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego


No tempo da nossa infância, de acordo com os escrúpulos da época, as brincadeiras eram diferenciadas e vividas no masculino e no feminino. Embora se brincasse em casa nos dias chuvosos de Inverno, a embalar bonecas que não fechavam os olhos, às alunas e professoras que fingiam dar reguadas, a preparar merendas com pão e condutos que estivessem à mão, era na rua que dávamos asas à imaginação e em qualquer recanto ou balcão de granito improvisávamos casinhas onde as pedras faziam de móveis e os cacos de barro utensílios domésticos. Dos buracos das paredes arrancávamos capilos, do chão apanhávamos serralha, beldroegas e dentes de leão que, misturados com terra e água, depois de tudo bem mexido, chamávamos comida como se de um manjar se tratasse. As personagens, definidas de acordo com a idade e capacidade de liderança, reduziam-se a “mães” e “filhas” omitindo-se a ausência da figura paterna que, numa justificação simplista, poderemos atribuir à ausência diurna do masculino na vida doméstica. Havia ainda um plural diversificado de bonecas: as matrafonas com corpos de peúgas cheias de trapos, cabelos de lã e olhos de botões, as feitas de giesta com cabeça de bogalho( fruto do carvalho) e as de papelão, compradas nas feiras, de lábios pintados e olhos azuis…estas, meninas grandes em miniatura, por terem custado dinheiro e terem a faculdade de se sentarem, raramente integravam as nossas “famílias”permanecendo quietas, de braços abertos, a enfeitar arcas ou cadeiras…não eram para brincar, não se fosse esfolar o rosado das faces.

De forma mais ou menos cíclica, os vários entretenimentos iam tendo lugar no decorrer do ano. Nos dias de calor, à sombra das casas ou debaixo de uma árvore, jogava-se ao lencinho, à cabra-cega, ao anelzinho, aos quatro cantinhos, ao bom- barqueiro, às pedrinhas trazidas do rio e à péla na altura da Páscoa. Ao tempo frio eram destinados jogos mais movimentados como a macaca, as escondidas, a apanhada, saltar a corda…e quando a liberdade de movimento superava qualquer organização lúdica, corríamos pelas ruas, de braços abertos empurradas pelo vento …na ilusão crescente de podermos voar.
A energia dos rapazes era dispendida a jogar à bola, independentemente da época do ano. Surgia sempre uma bola de trapos que, com a mínima organização futebolística, suscitava uma correria para a pontapear e fazer passar por entre duas pedras com alguns palavrões à mistura. Era uma sorte a textura da bola para os pés descalços...
Obedecendo a um imperativo desconhecido, chegava o tempo de correr nas andas, jogar o arco, a chôna, a malha, o pião. Os mais habilidosos faziam as baraças com linhas de algodão tiradas dos açafates das mães. Vários fios esticados e torcidos nas extremidades, em sentido contrário, transformavam-se na guita mágica que, enrolada com mestria no pião, o fazia rodar e rodopiar no terreiro. E nós, as meninas “mães” e “filhas”, íamo-nos aproximando sem tirar os olhos dos piões às voltas, à espera que um dos rapazes colocasse na nossa mão um deles em movimento para sentirmos aquela sensação estremecida que nos percorria o corpo a que, a morrer de riso, chamávamos cócegas.

Éramos fazedores de brinquedos. Da casca dos pinheiros saíam carrinhos de bois, da madeira dos carvalhos nasciam cancelas, picotas e arados, dos ramos de amieiro surgiam flautas, de um galho qualquer se faziam fisgas, de uns troncos unidos se improvisava um carro…com ramos de árvores se ajeitava um tecto, de umas pernadas de giesta uma vassoura, de pedaços de barro surgiam pratos que o sol nunca cozia, de sacos grávidos de trapos nasciam bonecas e mudas de roupa, com pinhões e linhas fazíamos colares, dois pés de cerejas unidos transformávamos em brincos e de ramos de malmequeres do campo armávamos coroas…

Porém, era nas brincadeiras sem nome que soltávamos a gana: fechava-se a cabra juntamente com as galinhas, atavam-se latas às caudas dos cães, puxavam-se os rabos dos burros, roubavam-se chouriças do fumeiro, saltávamos sem parar nas camas de giestas e palha feitas de novo nos currais das ovelhas, apanhávamos boleia nos carros de bois sem o lavrador se aperceber, corríamos à volta dos poços até ficarmos tontos, bebíamos água das chuvas nas covas de barro, fazíamos soveiro ( estragos com os pés) nas sementeiras, apanhávamos flores no adro da igreja, derretíamos a neve com líquido amarelado expelido pelo corpo. Evidentemente, ralhavam connosco. Mas, porque estas proezas nos estavam na massa do sangue, alternavam com repreensões em que sempre a palavra malhadiços vinha à baila.
Assim fomos crescendo, adquirindo livre e espontaneamente, noção de espaço, lateralidade, equilíbrio, coordenação motora, autonomia, segurança e outras que, num contexto de socialização de rua de aldeia, decerto nos fizeram felizes e contribuíram positivamente para o nosso desenvolvimento pessoal.

Brincámos, brincámos muito. Arranhámos as mãos, golpeámos dedos, ferimos os joelhos, fizemos galos na cabeça, entalámos dedos nas portas … imaginámos e inventámos tanto… como se pressentíssemos que, depois da infância, as brincadeiras seriam condicionadas pelo tempo, pela responsabilidade e circunstâncias e por nós próprios… e tivéssemos de imaginar e inventar outras que ludificassem a vida.



domingo, 16 de janeiro de 2011

Fonte do Forno - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

                                         Caída no esquecimento
                                         Ninguém lhe dá importância
                                         Tendo ela saciado
                                         A sede da nossa infância.

domingo, 5 de dezembro de 2010

As Trouxas da América - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

Nos tempos distantes da nossa meninice a palavra vestuário ainda não estava na moda nem esta influenciava a maneira de vestir de ninguém. Havia a preocupação, no Inverno, de se aconchegar o corpo às combinações e ceroulas de flanela que, para não arrefecerem, se usavam dia e noite. A roupa de vestir, propriamente dita, não se alterava com as demais estações do ano a não ser o complemento dos xailes pretos de lã ou das samarras com gola a imitar pele, somente usados em situações especiais de descanso. Numa época em que as dificuldades económicas atingiam a grande maioria das famílias, as vestimentas cumpriam cabalmente a sua missão, passando de uns para outros, mercê de uns pontos aqui, umas passagens ali e uns remendos onde o pano se rompia. Não havendo ricos, havia uma distribuição variável de pobreza nos vários aspectos de viver. Não obstante, o desejo de parecer bem, de ser mirado dos pés à cabeça, de estabelecer comparações, era uma realidade intrínseca de cada um, independentemente da idade.

Acontecia inesperadamente. Juntamente com o maço das cartas, postais e alguns jornais, na hora de, na taberna, em voz alta, ser lido o Correio, surgia um papel amarelo e fino dobrado em quatro partes a suscitar a curiosidade dos presentes, como se da roda da sorte se tratasse, na ânsia de saber quem seria o feliz contemplado. Era uma trouxa da América! Que ainda não era, mas passaria a ser depois da entrega daquele papel, nos Correios de Celorico da Beira. Rapidamente se ocultava, sem se amarfanhar muito, não fosse a troca invalidada, para se levantar o mais rápido possível. Da América distante, ficasse não interessava onde, tudo o que vinha era bom. As trouxas eram sempre oportunas: por se aproximarem datas festivas, por ter que se ir a um casamento, para mostrar brio no exame da 4ª classe, para ir à Vila ou mesmo porque os Domingos eram muitos.

Uma saca cilíndrica de tecido grosso, riscada com letras negras que não passavam de gatafunhos, se ia abrindo no meio da sala, com a porta da rua bem fechada, não só para saborear em família as surpresas amarrotadas mas também para poupar os olhares despidos dos vizinhos. Com uma sacudidela apressada e exclamações de contentamento, tudo ia ganhando forma à medida que se ia experimentando e adequando, nem sempre à primeira vez, o género e o tamanho da roupa. Tudo era lindo e ficava bem, no que concernia à cor, textura e feitio: as calças dos homens apenas precisariam de mudar o botão do cinto e subir ou descer as bainhas, os casacos largos, com mais uma camisola e as mangas dobradas, ficavam na perfeição; os casacos apertados, várias vezes vestidos e despidos, acabavam por servir a alguém, pois também não era para usar abotoados e os punhos da camisa tapavam o pulso… as roupas femininas denunciavam-se pelo volume reduzido e puxavam-se pela cor enquanto se adivinhava ser saia, vestido ou blusa…na certeza de ser possível alargar ou encolher e ficar mesmo à medida. Se acontecia uma mão-cheia de roupa transformar-se em cinto ou laço, aguardava-se até ao esvaziar do saco pela respectiva peça para contento redobrado de quem a encontrava ou desapontamento geral caso não passassem de inúteis acessórios. Nessa passagem de modelos em reboliço, em que ainda nada era de ninguém, sem acesso directo ao saco que ia perdendo a forma, íamos vestindo as peças mais pequenas na esperança de, por exaustiva redução de tamanho, também nos calhasse alguma. E calhava sempre! Uma saia de pregas desvincadas apenas a necessitar de menos altura e largura e um ferro de brasas… uma camisola que, ainda bem, tivesse encolhido, ou um vestido de menina que parecia ter sido feito para nós.

Fizeram os nossos encantos uns sapatos vermelhos, de salto alto, logo postos de lado, um atentado ao bem parecer, equilíbrio e piso da calçada. Por engano, se pensou, pois quem os enviou conhecia, da nossa aldeia, todas as realidades. Todavia, vezes sem fim neles se enfiaram os nossos pés de meninas transformadas em senhoras, nas brincadeiras de faz de conta…

Era uma alegria embrulhada em pano para ser exteriorizada no corpo e sentida na alma, enquanto de roupa de ver a Deus se tratasse. E, como os sentimentos se sustentavam de pessoas, coisas e tempo, assim este vestuário, sem identidade própria, haveria de substituir o mais usado para ser, uma vez mais, fatiota de festa de quem nunca recebia trouxas.

Longe no tempo e na distância desenrodilhamos memórias com calor de recordações e afectos numa tentativa de, com elas, nos revestirmos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Linguagem e Comunicação - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

O aglomerado populacional desta pequena aldeia, expressava-se numa linguagem verbal simples, basicamente rural, assente na motivação e interesses comuns que, por norma, resultava numa comunicação eficiente complementada com gestos e expressões corporais. Através dela, se relatavam as cheias da ribeira, as pragas dos escaravelhos das batatas, os porcos cevados que morriam de doença, as nascentes que secavam, as geadas que queimavam as colheitas, o leite das ovelhas que tinha secado, as galinhas que deixaram de pôr, os figos a secar que tinham apanhado chuva, os míscaros que rareavam nos pinhais…as oliveiras que tinham limpado bem, a copa florida das árvores de fruto que parecia um andor, a ninhada de pitos sem ovos goros, as azeitonas que já tinham a água de Abril, o sucesso da ida da cabra ao bode, fundamentavam as conversas nos trabalhos, nas fontes, nos lavadouros da ribeira. Outros temas, mais delicados, eram abordados nas tabernas, na barbearia, à soleira das portas, nos largos ( recordamos o Largo das Linguarudas) onde se passava a pente fino a vida alheia: quem nunca se confessava, quem comungava vezes de mais, quem ia à Vila para laurear o queijo ( sem motivo), quem tinha cortado o cabelo para fazer permanente, quem tinha calotes na taberna, quem trazia os filhos sujos, quem apanhava porrada dos maridos, quem se embebedava, quem fazia azeite sem ter oliveiras, quem andava de relações cortadas, quem se vestia a parecer fidalgo, quem não aprendia na escola, quem se comprazia a falar da vida dos outros…

As novidades espalhavam-se, aumentavam de conteúdo e gravidade, formando um colectivo noticioso aprofundado à noite ao redor da fogueira ou a apanhar o fresco à porta de casa onde nós, as crianças daquele tempo, a mexer no lume ou a contar estrelas, consciente e interessadamente, ficávamos a saber quase tudo.

Papel relevante na comunicação oral, com repertório exclusivo, pertencia ao Diário Capenga. Montado na velha burra, percorrendo as feiras dos arredores, presenciava outro tipo de informações, observava e participava em transacções ousadas que, pelas ruas da aldeia, sem descer da jumenta, a pedir segredo, transmitia a quem lhe desse conversa: fulano comprou ovelhas fiadas, sicrano vendeu um porco que deixara de comer, beltrano emprestou dinheiro a…na verdade, nada disto nos despertava interesse a não ser o abanar ritmado da cauda do animal parado para sacudir as moscas enquanto esperava que o dono coxo relatasse o seu diário.

Ocasionalmente, aparecia o Manelzinho Cantador. Entrado na idade, de saco às costas e cajado na mão, cantava quadras de amores traiçoeiros e atraiçoados com finais dolorosos e trágicos. Personagem enigmática, utilizava sempre a mesma resposta independentemente das perguntas que lhe fossem feitas:
- Num copo de água chalada
- Me quiseste envenenar.
- Tu, foste para a cadeia.
- Eu, fui para o Hospital.

Dizia-se que, em jovem, o efeito de uma bebida dada por uma rapariga, lhe causara distúrbios mentais que o afectariam para toda a vida.
Sentado ao sol nas pedras de um balcão entretinha-se a dobrar e redobrar bocados de arame que tinham a finalidade de prender o fio da linha ou da lã no ombro esquerdo a substituir a pouca graça do alfinete - de - dama nos lavores femininos. A sua presença era indiferente aos homens, algumas mulheres compravam a pequena peça artesanal e andavam. Mas nós, longe de sabermos que de poeta e de louco todos temos um pouco, mantínhamos as expectativas e não arredávamos pé até que a veia poética lhe acudisse à mente e desfiasse histórias amorosas que, embora tristes, nos encantavam e comoviam por falarem de amores tão fortes, dores tão profundas, finais tão arrepiantes que, vulneráveis nas razões do coração, fazíamos o propósito de nunca amar tanto para não sofrer assim.

A tradição oral, pela boca dos mais idosos, deu-nos a conhecer factos bizarros de lobisomens, de cavalos que corriam e relinchavam pelas ruas sem poderem ser vistos, de cães brancos que irradiavam luz, de feiticeiras que, certas noites, se banhavam no rio, de bruxas, de maus olhados, de piares de corujas que anunciavam mortes, de uivar de cães que era mau presságio, de entornar azeite que trazia azar, de facas cruzadas que não era bom…tudo ouvíamos sem ousar duvidar, com acrescentes da nossa imaginação infantil. Nesse tempo e no nosso, nas noites de escuridão cerrada, tudo poderia acontecer…

Um outro tipo de linguagem, de cariz apelativo, verificava-se nos sermões das missas de Domingo cuja mensagem, por vezes, se diluía na distância cultural entre os interlocutores. Certa vez, no decorrer da Guerra Colonial, a alusão à mensagem da Senhora de Fátima aos Pastorinhos … “esta guerra vai acabar” , foi interpretada, por muitos, com regozijo, como se do fim da Guerra em curso se tratasse.

Era nas desavenças, quando a língua se desenfreava, acompanhada por gestos intuitivos, que a verdadeira comunicação se estabelecia. Os homens, mais parcos nas palavras e pródigos nos actos, com chapéus atirados ao chão e umas cuspidelas provocatórias aos socos e pontapés, às vezes com o cabo de um sacho e umas cabeças partidas, se entendiam; as mulheres alongavam as dissertações e, de mãos fincadas nos quadris, depois de “badalhocas”, “sonsas”, “que eu morra ceguinha de gota serena”, “ mil carbúnculos me nasçam”, “sua esta”, “sua aquela”, assumiam posições de corpo a corpo: os lenços da cabeça caíam, os cabelos desgrenhados ficavam à mão de semear, as blusas desabotoavam-se e saiam das saias, os aventais desatavam-se, os pés descalçavam-se …uns arranhões, umas riças de cabelo a menos e umas nódoas negras punham fim ao desentendimento.

Da comunicação escrita apenas beneficiava uma parcela desta comunidade em que a maioria das pessoas, sobretudo as mais idosas, não tinha frequentado a escola. Ser analfabeto representava, na época, uma realidade humana que, por condições concretas de existência, não necessitava de ler nem escrever. À taberna, de vez em quando, chegavam Jornais cujas notícias, de tão complexas, lidas em voz alta, entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Fragmentadas, acabavam por ser absorvidas pelo colorau, sal e canela dos cartuchos. A divulgação do Arauto da Verdade, no âmbito do Concelho e distribuído pelo Pároco, apenas dedicava um espaço muito reduzido a Vila Boa do Mondego onde constavam óbitos, partidas e chegadas de emigrantes e os donativos oferecidos à Igreja que, para evitar falatório, era frequente virem anónimos.

Nas feiras, havia quem comprasse o Almanaque que, em edição anual, além do Calendário com sinalização de Feriados e Dias Santos de Guarda, fazia vagas previsões do tempo, referia as Fases da Lua e Folhetos desdobráveis com tragédias amorosas em versos de fazer chorar. Alguém lia, alguém ouvia, tudo se esquecia. A escrita não constituía uma necessidade premente nem assumia papel relevante na materialização do pensamento, excepto quando era necessário ler ou escrever cartas. O envolvimento de outra pessoa, a quem tinha que se dar a vida a saber, não era feito de ânimo leve. Em regra, era assunto de mulheres. Se bem que a leitura das cartas não se fizesse esperar, dar-lhes resposta implicava, de ambas as partes, vários “quando tiver vagar”…
O Correio chegava à aldeia de bicicleta, numa saca grande de lona, fechada com cadeado, grande de mais para a escassa correspondência. Quem morava próximo, não perdia a leitura do Correio, em voz alta, cujos destinatários presentes se apressavam a receber. Ter uma carta era ter importância, independentemente do remetente e conteúdo!
A ti Jaquina, de idade avançada, passava horas no Largo da taberna, sentada no comprido banco de pedra, à espera do Correio. Era uma referência para se saber se o Correio já tinha chegado. Não sabia ler nem escrever, mas sabia quem recebia cartas e encarregava-se de as entregar a quem morava próximo da Capela. Levava sempre cartas ou postais acumulando nas mãos notícias mudas, quem sabe na esperança de as receber do Brasil para onde fora a sobrinha que criara de pequenina e, de tempos a tempos, lhe escrevia.

As cartas davam-se a ler em qualquer sítio. Escondidas debaixo do avental, ainda por abrir, iam ao encontro da pessoa certa, se estivesse sozinha, como se desvendar um segredo se tratasse. A compreensão do conteúdo, condicionada pela aptidão de quem lia e pela destreza de quem escrevia, fazia-se lentamente ora avançando ora regredindo permitindo, com repetições sucessivas das frases, a memorização quase integral do texto. A bem dizer, apenas a parte do meio, pois o começo e o fim já era sabido de cor:” Espero que ao fazer desta todos se encontrem bem, nós cá andamos na forma do costume”…e “ficamos à espera de resposta vossa na volta do correio, saudades, abraços e beijinhos, desta ou deste”… a verdade, é que um pedaço de papel activava imagens, factos, sentimentos, recordações; eram duas mulheres emocionadas; uma porque lera outra porque ouvira ler. Esta, limpando os olhos à ponta do avental, confundida entre alegria e tristeza, nem atinava com palavras para agradecer que, pensando bem, quem não conseguia descodificar um simples texto não poderia ter um vasto vocabulário.

Escrever uma carta tinha o seu ritual. Fazia-se sempre na mesa da sala depois de se arredar tudo o que pudesse estorvar: a jarra das flores, o açafate da costura, um chapéu, uma chave, um prato com figos secos. Mulheres e cadeiras, desajustadas pela ausência do hábito, com algum incómodo se iam arrastando para junto da mesa em sintonia com a inspiração que, raras vezes era necessária. Enquanto a que ditava a carta se ia lamentando por não saber o que dizer, já a que escrevia tinha umas linhas preenchidas para consolo da primeira. Redigiam a meias. Notícias dos familiares, dos vizinhos, um ou outro enredo curioso que, a medo, se mandava pôr e, quando chegava a altura de escrever no verso, era um alívio não tanto pelo conteúdo, mas pela extensão e o fim à vista que já não parecia mal. As cartas em pouco diferiam a não ser no endereço e remetente que, à falta de linhas, ora subiam ou desciam recaindo a culpa na mesa que baloiçava ou nas pernas tortas da cadeira.

Rebanho - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

Há imagens que se apagam
Para a outras dar lugar.
Esta, vai juntar-se àquelas
Do rebanho a pastar.