quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Brincadeiras de infância - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego


No tempo da nossa infância, de acordo com os escrúpulos da época, as brincadeiras eram diferenciadas e vividas no masculino e no feminino. Embora se brincasse em casa nos dias chuvosos de Inverno, a embalar bonecas que não fechavam os olhos, às alunas e professoras que fingiam dar reguadas, a preparar merendas com pão e condutos que estivessem à mão, era na rua que dávamos asas à imaginação e em qualquer recanto ou balcão de granito improvisávamos casinhas onde as pedras faziam de móveis e os cacos de barro utensílios domésticos. Dos buracos das paredes arrancávamos capilos, do chão apanhávamos serralha, beldroegas e dentes de leão que, misturados com terra e água, depois de tudo bem mexido, chamávamos comida como se de um manjar se tratasse. As personagens, definidas de acordo com a idade e capacidade de liderança, reduziam-se a “mães” e “filhas” omitindo-se a ausência da figura paterna que, numa justificação simplista, poderemos atribuir à ausência diurna do masculino na vida doméstica. Havia ainda um plural diversificado de bonecas: as matrafonas com corpos de peúgas cheias de trapos, cabelos de lã e olhos de botões, as feitas de giesta com cabeça de bogalho( fruto do carvalho) e as de papelão, compradas nas feiras, de lábios pintados e olhos azuis…estas, meninas grandes em miniatura, por terem custado dinheiro e terem a faculdade de se sentarem, raramente integravam as nossas “famílias”permanecendo quietas, de braços abertos, a enfeitar arcas ou cadeiras…não eram para brincar, não se fosse esfolar o rosado das faces.

De forma mais ou menos cíclica, os vários entretenimentos iam tendo lugar no decorrer do ano. Nos dias de calor, à sombra das casas ou debaixo de uma árvore, jogava-se ao lencinho, à cabra-cega, ao anelzinho, aos quatro cantinhos, ao bom- barqueiro, às pedrinhas trazidas do rio e à péla na altura da Páscoa. Ao tempo frio eram destinados jogos mais movimentados como a macaca, as escondidas, a apanhada, saltar a corda…e quando a liberdade de movimento superava qualquer organização lúdica, corríamos pelas ruas, de braços abertos empurradas pelo vento …na ilusão crescente de podermos voar.
A energia dos rapazes era dispendida a jogar à bola, independentemente da época do ano. Surgia sempre uma bola de trapos que, com a mínima organização futebolística, suscitava uma correria para a pontapear e fazer passar por entre duas pedras com alguns palavrões à mistura. Era uma sorte a textura da bola para os pés descalços...
Obedecendo a um imperativo desconhecido, chegava o tempo de correr nas andas, jogar o arco, a chôna, a malha, o pião. Os mais habilidosos faziam as baraças com linhas de algodão tiradas dos açafates das mães. Vários fios esticados e torcidos nas extremidades, em sentido contrário, transformavam-se na guita mágica que, enrolada com mestria no pião, o fazia rodar e rodopiar no terreiro. E nós, as meninas “mães” e “filhas”, íamo-nos aproximando sem tirar os olhos dos piões às voltas, à espera que um dos rapazes colocasse na nossa mão um deles em movimento para sentirmos aquela sensação estremecida que nos percorria o corpo a que, a morrer de riso, chamávamos cócegas.

Éramos fazedores de brinquedos. Da casca dos pinheiros saíam carrinhos de bois, da madeira dos carvalhos nasciam cancelas, picotas e arados, dos ramos de amieiro surgiam flautas, de um galho qualquer se faziam fisgas, de uns troncos unidos se improvisava um carro…com ramos de árvores se ajeitava um tecto, de umas pernadas de giesta uma vassoura, de pedaços de barro surgiam pratos que o sol nunca cozia, de sacos grávidos de trapos nasciam bonecas e mudas de roupa, com pinhões e linhas fazíamos colares, dois pés de cerejas unidos transformávamos em brincos e de ramos de malmequeres do campo armávamos coroas…

Porém, era nas brincadeiras sem nome que soltávamos a gana: fechava-se a cabra juntamente com as galinhas, atavam-se latas às caudas dos cães, puxavam-se os rabos dos burros, roubavam-se chouriças do fumeiro, saltávamos sem parar nas camas de giestas e palha feitas de novo nos currais das ovelhas, apanhávamos boleia nos carros de bois sem o lavrador se aperceber, corríamos à volta dos poços até ficarmos tontos, bebíamos água das chuvas nas covas de barro, fazíamos soveiro ( estragos com os pés) nas sementeiras, apanhávamos flores no adro da igreja, derretíamos a neve com líquido amarelado expelido pelo corpo. Evidentemente, ralhavam connosco. Mas, porque estas proezas nos estavam na massa do sangue, alternavam com repreensões em que sempre a palavra malhadiços vinha à baila.
Assim fomos crescendo, adquirindo livre e espontaneamente, noção de espaço, lateralidade, equilíbrio, coordenação motora, autonomia, segurança e outras que, num contexto de socialização de rua de aldeia, decerto nos fizeram felizes e contribuíram positivamente para o nosso desenvolvimento pessoal.

Brincámos, brincámos muito. Arranhámos as mãos, golpeámos dedos, ferimos os joelhos, fizemos galos na cabeça, entalámos dedos nas portas … imaginámos e inventámos tanto… como se pressentíssemos que, depois da infância, as brincadeiras seriam condicionadas pelo tempo, pela responsabilidade e circunstâncias e por nós próprios… e tivéssemos de imaginar e inventar outras que ludificassem a vida.



domingo, 16 de janeiro de 2011

Fonte do Forno - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

                                         Caída no esquecimento
                                         Ninguém lhe dá importância
                                         Tendo ela saciado
                                         A sede da nossa infância.

domingo, 5 de dezembro de 2010

As Trouxas da América - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

Nos tempos distantes da nossa meninice a palavra vestuário ainda não estava na moda nem esta influenciava a maneira de vestir de ninguém. Havia a preocupação, no Inverno, de se aconchegar o corpo às combinações e ceroulas de flanela que, para não arrefecerem, se usavam dia e noite. A roupa de vestir, propriamente dita, não se alterava com as demais estações do ano a não ser o complemento dos xailes pretos de lã ou das samarras com gola a imitar pele, somente usados em situações especiais de descanso. Numa época em que as dificuldades económicas atingiam a grande maioria das famílias, as vestimentas cumpriam cabalmente a sua missão, passando de uns para outros, mercê de uns pontos aqui, umas passagens ali e uns remendos onde o pano se rompia. Não havendo ricos, havia uma distribuição variável de pobreza nos vários aspectos de viver. Não obstante, o desejo de parecer bem, de ser mirado dos pés à cabeça, de estabelecer comparações, era uma realidade intrínseca de cada um, independentemente da idade.

Acontecia inesperadamente. Juntamente com o maço das cartas, postais e alguns jornais, na hora de, na taberna, em voz alta, ser lido o Correio, surgia um papel amarelo e fino dobrado em quatro partes a suscitar a curiosidade dos presentes, como se da roda da sorte se tratasse, na ânsia de saber quem seria o feliz contemplado. Era uma trouxa da América! Que ainda não era, mas passaria a ser depois da entrega daquele papel, nos Correios de Celorico da Beira. Rapidamente se ocultava, sem se amarfanhar muito, não fosse a troca invalidada, para se levantar o mais rápido possível. Da América distante, ficasse não interessava onde, tudo o que vinha era bom. As trouxas eram sempre oportunas: por se aproximarem datas festivas, por ter que se ir a um casamento, para mostrar brio no exame da 4ª classe, para ir à Vila ou mesmo porque os Domingos eram muitos.

Uma saca cilíndrica de tecido grosso, riscada com letras negras que não passavam de gatafunhos, se ia abrindo no meio da sala, com a porta da rua bem fechada, não só para saborear em família as surpresas amarrotadas mas também para poupar os olhares despidos dos vizinhos. Com uma sacudidela apressada e exclamações de contentamento, tudo ia ganhando forma à medida que se ia experimentando e adequando, nem sempre à primeira vez, o género e o tamanho da roupa. Tudo era lindo e ficava bem, no que concernia à cor, textura e feitio: as calças dos homens apenas precisariam de mudar o botão do cinto e subir ou descer as bainhas, os casacos largos, com mais uma camisola e as mangas dobradas, ficavam na perfeição; os casacos apertados, várias vezes vestidos e despidos, acabavam por servir a alguém, pois também não era para usar abotoados e os punhos da camisa tapavam o pulso… as roupas femininas denunciavam-se pelo volume reduzido e puxavam-se pela cor enquanto se adivinhava ser saia, vestido ou blusa…na certeza de ser possível alargar ou encolher e ficar mesmo à medida. Se acontecia uma mão-cheia de roupa transformar-se em cinto ou laço, aguardava-se até ao esvaziar do saco pela respectiva peça para contento redobrado de quem a encontrava ou desapontamento geral caso não passassem de inúteis acessórios. Nessa passagem de modelos em reboliço, em que ainda nada era de ninguém, sem acesso directo ao saco que ia perdendo a forma, íamos vestindo as peças mais pequenas na esperança de, por exaustiva redução de tamanho, também nos calhasse alguma. E calhava sempre! Uma saia de pregas desvincadas apenas a necessitar de menos altura e largura e um ferro de brasas… uma camisola que, ainda bem, tivesse encolhido, ou um vestido de menina que parecia ter sido feito para nós.

Fizeram os nossos encantos uns sapatos vermelhos, de salto alto, logo postos de lado, um atentado ao bem parecer, equilíbrio e piso da calçada. Por engano, se pensou, pois quem os enviou conhecia, da nossa aldeia, todas as realidades. Todavia, vezes sem fim neles se enfiaram os nossos pés de meninas transformadas em senhoras, nas brincadeiras de faz de conta…

Era uma alegria embrulhada em pano para ser exteriorizada no corpo e sentida na alma, enquanto de roupa de ver a Deus se tratasse. E, como os sentimentos se sustentavam de pessoas, coisas e tempo, assim este vestuário, sem identidade própria, haveria de substituir o mais usado para ser, uma vez mais, fatiota de festa de quem nunca recebia trouxas.

Longe no tempo e na distância desenrodilhamos memórias com calor de recordações e afectos numa tentativa de, com elas, nos revestirmos.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Linguagem e Comunicação - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

O aglomerado populacional desta pequena aldeia, expressava-se numa linguagem verbal simples, basicamente rural, assente na motivação e interesses comuns que, por norma, resultava numa comunicação eficiente complementada com gestos e expressões corporais. Através dela, se relatavam as cheias da ribeira, as pragas dos escaravelhos das batatas, os porcos cevados que morriam de doença, as nascentes que secavam, as geadas que queimavam as colheitas, o leite das ovelhas que tinha secado, as galinhas que deixaram de pôr, os figos a secar que tinham apanhado chuva, os míscaros que rareavam nos pinhais…as oliveiras que tinham limpado bem, a copa florida das árvores de fruto que parecia um andor, a ninhada de pitos sem ovos goros, as azeitonas que já tinham a água de Abril, o sucesso da ida da cabra ao bode, fundamentavam as conversas nos trabalhos, nas fontes, nos lavadouros da ribeira. Outros temas, mais delicados, eram abordados nas tabernas, na barbearia, à soleira das portas, nos largos ( recordamos o Largo das Linguarudas) onde se passava a pente fino a vida alheia: quem nunca se confessava, quem comungava vezes de mais, quem ia à Vila para laurear o queijo ( sem motivo), quem tinha cortado o cabelo para fazer permanente, quem tinha calotes na taberna, quem trazia os filhos sujos, quem apanhava porrada dos maridos, quem se embebedava, quem fazia azeite sem ter oliveiras, quem andava de relações cortadas, quem se vestia a parecer fidalgo, quem não aprendia na escola, quem se comprazia a falar da vida dos outros…

As novidades espalhavam-se, aumentavam de conteúdo e gravidade, formando um colectivo noticioso aprofundado à noite ao redor da fogueira ou a apanhar o fresco à porta de casa onde nós, as crianças daquele tempo, a mexer no lume ou a contar estrelas, consciente e interessadamente, ficávamos a saber quase tudo.

Papel relevante na comunicação oral, com repertório exclusivo, pertencia ao Diário Capenga. Montado na velha burra, percorrendo as feiras dos arredores, presenciava outro tipo de informações, observava e participava em transacções ousadas que, pelas ruas da aldeia, sem descer da jumenta, a pedir segredo, transmitia a quem lhe desse conversa: fulano comprou ovelhas fiadas, sicrano vendeu um porco que deixara de comer, beltrano emprestou dinheiro a…na verdade, nada disto nos despertava interesse a não ser o abanar ritmado da cauda do animal parado para sacudir as moscas enquanto esperava que o dono coxo relatasse o seu diário.

Ocasionalmente, aparecia o Manelzinho Cantador. Entrado na idade, de saco às costas e cajado na mão, cantava quadras de amores traiçoeiros e atraiçoados com finais dolorosos e trágicos. Personagem enigmática, utilizava sempre a mesma resposta independentemente das perguntas que lhe fossem feitas:
- Num copo de água chalada
- Me quiseste envenenar.
- Tu, foste para a cadeia.
- Eu, fui para o Hospital.

Dizia-se que, em jovem, o efeito de uma bebida dada por uma rapariga, lhe causara distúrbios mentais que o afectariam para toda a vida.
Sentado ao sol nas pedras de um balcão entretinha-se a dobrar e redobrar bocados de arame que tinham a finalidade de prender o fio da linha ou da lã no ombro esquerdo a substituir a pouca graça do alfinete - de - dama nos lavores femininos. A sua presença era indiferente aos homens, algumas mulheres compravam a pequena peça artesanal e andavam. Mas nós, longe de sabermos que de poeta e de louco todos temos um pouco, mantínhamos as expectativas e não arredávamos pé até que a veia poética lhe acudisse à mente e desfiasse histórias amorosas que, embora tristes, nos encantavam e comoviam por falarem de amores tão fortes, dores tão profundas, finais tão arrepiantes que, vulneráveis nas razões do coração, fazíamos o propósito de nunca amar tanto para não sofrer assim.

A tradição oral, pela boca dos mais idosos, deu-nos a conhecer factos bizarros de lobisomens, de cavalos que corriam e relinchavam pelas ruas sem poderem ser vistos, de cães brancos que irradiavam luz, de feiticeiras que, certas noites, se banhavam no rio, de bruxas, de maus olhados, de piares de corujas que anunciavam mortes, de uivar de cães que era mau presságio, de entornar azeite que trazia azar, de facas cruzadas que não era bom…tudo ouvíamos sem ousar duvidar, com acrescentes da nossa imaginação infantil. Nesse tempo e no nosso, nas noites de escuridão cerrada, tudo poderia acontecer…

Um outro tipo de linguagem, de cariz apelativo, verificava-se nos sermões das missas de Domingo cuja mensagem, por vezes, se diluía na distância cultural entre os interlocutores. Certa vez, no decorrer da Guerra Colonial, a alusão à mensagem da Senhora de Fátima aos Pastorinhos … “esta guerra vai acabar” , foi interpretada, por muitos, com regozijo, como se do fim da Guerra em curso se tratasse.

Era nas desavenças, quando a língua se desenfreava, acompanhada por gestos intuitivos, que a verdadeira comunicação se estabelecia. Os homens, mais parcos nas palavras e pródigos nos actos, com chapéus atirados ao chão e umas cuspidelas provocatórias aos socos e pontapés, às vezes com o cabo de um sacho e umas cabeças partidas, se entendiam; as mulheres alongavam as dissertações e, de mãos fincadas nos quadris, depois de “badalhocas”, “sonsas”, “que eu morra ceguinha de gota serena”, “ mil carbúnculos me nasçam”, “sua esta”, “sua aquela”, assumiam posições de corpo a corpo: os lenços da cabeça caíam, os cabelos desgrenhados ficavam à mão de semear, as blusas desabotoavam-se e saiam das saias, os aventais desatavam-se, os pés descalçavam-se …uns arranhões, umas riças de cabelo a menos e umas nódoas negras punham fim ao desentendimento.

Da comunicação escrita apenas beneficiava uma parcela desta comunidade em que a maioria das pessoas, sobretudo as mais idosas, não tinha frequentado a escola. Ser analfabeto representava, na época, uma realidade humana que, por condições concretas de existência, não necessitava de ler nem escrever. À taberna, de vez em quando, chegavam Jornais cujas notícias, de tão complexas, lidas em voz alta, entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Fragmentadas, acabavam por ser absorvidas pelo colorau, sal e canela dos cartuchos. A divulgação do Arauto da Verdade, no âmbito do Concelho e distribuído pelo Pároco, apenas dedicava um espaço muito reduzido a Vila Boa do Mondego onde constavam óbitos, partidas e chegadas de emigrantes e os donativos oferecidos à Igreja que, para evitar falatório, era frequente virem anónimos.

Nas feiras, havia quem comprasse o Almanaque que, em edição anual, além do Calendário com sinalização de Feriados e Dias Santos de Guarda, fazia vagas previsões do tempo, referia as Fases da Lua e Folhetos desdobráveis com tragédias amorosas em versos de fazer chorar. Alguém lia, alguém ouvia, tudo se esquecia. A escrita não constituía uma necessidade premente nem assumia papel relevante na materialização do pensamento, excepto quando era necessário ler ou escrever cartas. O envolvimento de outra pessoa, a quem tinha que se dar a vida a saber, não era feito de ânimo leve. Em regra, era assunto de mulheres. Se bem que a leitura das cartas não se fizesse esperar, dar-lhes resposta implicava, de ambas as partes, vários “quando tiver vagar”…
O Correio chegava à aldeia de bicicleta, numa saca grande de lona, fechada com cadeado, grande de mais para a escassa correspondência. Quem morava próximo, não perdia a leitura do Correio, em voz alta, cujos destinatários presentes se apressavam a receber. Ter uma carta era ter importância, independentemente do remetente e conteúdo!
A ti Jaquina, de idade avançada, passava horas no Largo da taberna, sentada no comprido banco de pedra, à espera do Correio. Era uma referência para se saber se o Correio já tinha chegado. Não sabia ler nem escrever, mas sabia quem recebia cartas e encarregava-se de as entregar a quem morava próximo da Capela. Levava sempre cartas ou postais acumulando nas mãos notícias mudas, quem sabe na esperança de as receber do Brasil para onde fora a sobrinha que criara de pequenina e, de tempos a tempos, lhe escrevia.

As cartas davam-se a ler em qualquer sítio. Escondidas debaixo do avental, ainda por abrir, iam ao encontro da pessoa certa, se estivesse sozinha, como se desvendar um segredo se tratasse. A compreensão do conteúdo, condicionada pela aptidão de quem lia e pela destreza de quem escrevia, fazia-se lentamente ora avançando ora regredindo permitindo, com repetições sucessivas das frases, a memorização quase integral do texto. A bem dizer, apenas a parte do meio, pois o começo e o fim já era sabido de cor:” Espero que ao fazer desta todos se encontrem bem, nós cá andamos na forma do costume”…e “ficamos à espera de resposta vossa na volta do correio, saudades, abraços e beijinhos, desta ou deste”… a verdade, é que um pedaço de papel activava imagens, factos, sentimentos, recordações; eram duas mulheres emocionadas; uma porque lera outra porque ouvira ler. Esta, limpando os olhos à ponta do avental, confundida entre alegria e tristeza, nem atinava com palavras para agradecer que, pensando bem, quem não conseguia descodificar um simples texto não poderia ter um vasto vocabulário.

Escrever uma carta tinha o seu ritual. Fazia-se sempre na mesa da sala depois de se arredar tudo o que pudesse estorvar: a jarra das flores, o açafate da costura, um chapéu, uma chave, um prato com figos secos. Mulheres e cadeiras, desajustadas pela ausência do hábito, com algum incómodo se iam arrastando para junto da mesa em sintonia com a inspiração que, raras vezes era necessária. Enquanto a que ditava a carta se ia lamentando por não saber o que dizer, já a que escrevia tinha umas linhas preenchidas para consolo da primeira. Redigiam a meias. Notícias dos familiares, dos vizinhos, um ou outro enredo curioso que, a medo, se mandava pôr e, quando chegava a altura de escrever no verso, era um alívio não tanto pelo conteúdo, mas pela extensão e o fim à vista que já não parecia mal. As cartas em pouco diferiam a não ser no endereço e remetente que, à falta de linhas, ora subiam ou desciam recaindo a culpa na mesa que baloiçava ou nas pernas tortas da cadeira.

Rebanho - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

Há imagens que se apagam
Para a outras dar lugar.
Esta, vai juntar-se àquelas
Do rebanho a pastar.


domingo, 10 de outubro de 2010

A Emigração - Anos 60 - Vila Boa do Mondego

As condições de vida, proporcionadas pela labuta constante de extrair do amanho da terra dura a subsistência precária, desde há longo tempo suscitavam o desejo de partir quer para África, Brasil ou Estados Unidos ( América, como se dizia) na quimera de abanar a árvore das patacas que não chegavam a encontrar. Para o efeito, era necessária carta de chamada que, dificilmente, se conseguia. Por intermédio de familiares ou casamentos feitos por procuração, alguns conseguiram concretizar esse sonho. De terras africanas, gozando as “graciosas”( férias acumuladas), vinham famílias que permaneciam alguns meses. Impressionavam-nos os automóveis em que chegavam, alugados em Lisboa, a variedade de roupa colorida, os rolos que as senhoras colocavam nos cabelos, para parecerem mais senhoras, os empregados domésticos de que diziam dispor, as muitas festas em que participavam… e um pó amarelo que, dissolvido em leite, com um pouco de açúcar, resultava em leite-creme. Do Brasil, poucos ou nenhuns regressavam e as notícias escasseavam nos envelopes de papel fino emoldurados com riscas verdes e amarelas. Os familiares relatavam que estavam bem mas, dada a lonjura, não diziam quando poderiam vir. Sem localização no tempo, contava-se que na estrada de Fornos, nas Ladeiras, alguém da aldeia se cruzara com um homem que, sem se identificar, fora sabedor que a mulher tinha outro marido e filhos em virtude do primeiro ter falecido no Brasil. Esta estória entristecia-nos deveras ao concluir que o homem arrepiara caminho e nunca mais ninguém o vira. Na nossa interpretação infantil, baseada apenas na sensibilidade, estávamos longe de pensar nas trágicas consequências de ser morto-vivo. Da América, até o colorido do debruado das cartas era mais alegre, vermelho e azul, a condizer com novidades favoráveis que, de vez em quando, se faziam acompanhar com uma nota de “dolas”( dollars) que surpreendiam e alegravam quem as recebia. De tempos a tempos, os “americanos” vinham de visita: distribuíam, à chegada, rebuçados pela criançada, mudavam de roupa várias vezes, iam à Vila sem ser Terça-Feira e, na missa de Domingo, depositavam uma nota na bandeja de “tirar a esmola”.


O desejo latente de partir, agudizado pela agricultura tecnicamente atrasada em que cuspir nas mãos, agarrado ao cabo da enxada, continuava a fazer calos sem diminuir as miseráveis condições de vida, num regime político que insistia na preservação da subsistência do povo e na interminável guerra colonial, despertou em corpos moídos com mentes sadias a ideia inabalável de mudar de vida para mudar a vida. Sabia-se que, em aldeias próximas, outros homens já se tinham aventurado, uns presos, outros enganados pelo” passador”, mas que alguns tinham conseguido chegar a França. Era um assunto sigiloso, soprado aos ouvidos nas feiras e mercados, delicado de mais para ser abordado nas Tabernas. Era irrelevante saber as causas dessa aceitação clandestina por parte desse e de outros países europeus. A quem interessava saber as consequências da Segunda Grande Guerra Mundial, a ocupação, a destruição, a reconstrução, a falta de mão de obra…se ali, naquela pequena aldeia, noutra guerra silenciosa se combatia que, durante gerações, ninguém conseguira vencer! Sentia-se na pele e na alma, sem constar do vocabulário activo, o duplo conceito de “interioridade”: de uma aldeia serrana e de um estado de espírito traduzido em inquietação, inconformismo, revolta, ânsia de uma vida melhor.

Estávamos no início da década de sessenta. Uma manhã, bem cedo, quatro homens na casa dos quarenta anos, conversavam junto ao Forno Grande, olhos postos na estrada que à distância se sumia nas Nogueiras. Viviam da pastorícia e da agricultura, não possuíam formação que lhes permitisse enveredar noutra profissão em qualquer parte do mundo mas, confiantes na força dos seus braços, haviam de ser, na nossa aldeia, os pioneiros dessa aventura clandestina: a Emigração. Eram pessoas respeitáveis, herdados de terras, com escolaridade que, ao tempo, os diferenciava da grande maioria. Porque os actos de coragem pressupõem sempre laivos de invulgaridade. O facto de, certamente, desconhecerem a existência do Decreto-Lei Nº 39749 de 1954, que classificava a emigração clandestina como crime, terá suavizado o sentimento de transgressão de modo a não se assumirem como criminosos. Acima de tudo, era o futuro dos seus descendentes que os norteava. Um deles tinha duas filhas na escola que, desse por onde desse, tinha que pôr a estudar, para as livrar daquela “escravatura” a que, dizia, ele próprio estava condenado. Combinaram emigrar para França, “a salto”, evidentemente. Urgia procurar um “passador”, ajustar o preço, arranjar o dinheiro, marcar a data da partida. Pela calada da noite, um misterioso desconhecido entrava na aldeia para os instruir sobre o decurso da viagem, depois de ter recebido uma parte do dinheiro. Preconizava um longo e desconhecido caminho a percorrer, possíveis perigos, maldosas denúncias, omitindo sempre a PIDE, a Guarda Fiscal, os Carabineiros espanhóis, os Gendarmes franceses e demais riscos. Noite alta, quando os xailes pretos tapavam as frestas das janelas para esconder a presença tardia da luz frouxa do candeeiro e nós já nos tínhamos recolhido, o “passador” não comparecera e não mais daria sinal de vida. Havia que reiniciar o processo, confiar sem ter confiança, não poder estar de pé atrás quando tanto iam ser precisos para andar em frente.

Partiram pela calada da noite, misturados na escuridão da tristeza, da incerteza e do medo. Levavam pouco dinheiro, a roupa do corpo, uns endereços franceses cedidos por familiares de terras vizinhas…e uma dor de fugitivo no peito. Deixavam tudo: a família, os amigos, a casa, os animais, os campos, os pinhais, uma aldeia inteira… uma vida.

Quando uma carrinha fez sinais de luzes, conforme combinado, surgiram na berma da estrada, nas proximidades da aldeia e, apressadamente, foram conduzidos por um motorista que, sem fazer perguntas, os deixou nas imediações de Vilar Formoso, ao abrigo de uns arbustos, até que alguém os fosse buscar. De imediato, outros homens se apearam de outras carrinhas e se foram agachando, em silêncio, até que, perfazendo umas dezenas, foram conduzidos para passarem a fronteira a pé, ora por carreiros, ora por matagais cerrados, antes que se fizesse dia. A atribulada travessia da Espanha, atafulhados em carrinhas sem janelas e a palmilhar caminhos já trilhados ou por trilhar, alimentados a pão, água e chocolate em barra, agravada pela chuva impiedosa que os acometeu, ia enfraquecendo o corpo, o espírito e a vontade de continuar. Como em todas as grandes decisões na vida nem sempre se pode voltar atrás, nesta situação seria arriscar mais recuar do que prosseguir. Mandaram-nos esconder num velho moinho algures num monte escabroso afastado da estrada e esperar que alguém aparecesse. Acenderam uma fogueira para secarem a roupa ao mesmo tempo que, contrariando o ditado que diz que “a união faz a força”, o desânimo colectivo se individualizava. Não havia fortes nem fracos. Apenas um grupo de homens desconhecidos, cansados, esfomeados, submissos, desorientados, abandonados.
O surgimento de um jovem rapaz, ordenando que o seguissem, acentuou fragilidade, desconfiança e outros sentimentos tão negativos que, nem quando ouvíamos os relatos, nem agora, saberíamos descrever. Porém, um ramo de árvore discretamente tombado à beira da estrada, era o código que faria parar outra carrinha para outro troço de Espanha que ia sendo percorrida com rodas e pés, quilómetros em ziguezague...
Aproximava-se a travessia dos Pirenéus para entrar em França que, segundo palpites de uns e outros, se revestia de perigos redobrados quer pelo acidentado do relevo, quer pela vigilância atenta na fronteira. Em grupo reduzido, noite dentro, sem disso se aperceberem, foram informados de que já se encontravam em território francês o que, justificadamente, lhes concedeu algum alívio. A aventura da viagem terminaria em Tours, a duzentos e quarenta quilómetros de Paris. A cidade ainda dormia quando os quatro homens de Vila Boa do Mondego foram deixados à sorte, sem eira nem beira, numa rua iluminada que os amedrontou. O escuro, por norma, gera um medo desconhecido, infundado; neste caso, a claridade era prenúncio da clandestinidade visível nos rostos sofridos e comprometidos, nos trajes descuidados, em corpos ocupando um espaço errado que, ao romper do dia, por si próprios se denunciariam. Sempre que assistíamos às repetidas descrições desta proeza constatávamos ter sido este o ponto culminante da angústia, do desespero, do terror de ser preso!
A luz que se acendeu numa janela não estava “ao fundo do túnel”. Estava próxima de uma porta que se abriu e os recolheu.

Outras dificuldades se seguiram relacionadas com a língua francesa, a cultura, a integração, a discriminação, a legalização…..as saudades… ..que, sem e com remetente, iriam afogando em cartas.

Retroceder no tempo é remexer no passado. Involuntariamente, desencadeia-se um fluxo de pensamento que conduz a uma miríade de sentimentos que deixam transparecer vivências íntimas que, das profundezas do ser, se convertem em lágrimas. Implícitos nas palavras e ideias há, nesta parcela de memórias, um amor recíproco, uma dívida de gratidão impagável de desenvolvimento pessoal, humano, espiritual e cultural e … uma saudade infinita…quando um desses homens era o nosso pai.

sábado, 9 de outubro de 2010

A Igreja - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

Berço da nossa religiosidade
Sustentação da Fé e da Verdade
Património vivo de Valores.
Em prece suplicamos ser merecedores.