sábado, 7 de agosto de 2010

As Comédias - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

Acontecia de tempos a tempos, ao sairmos da escola, depararmo-nos no largo da Taberna com um movimento fora do comum fosse pelas características das pessoas, fosse pela singularidade das bagagens: eram as Comédias! Assim se denominava o grupo compreendendo várias faixas etárias, trajando de forma diferente do nosso habitual, alheado da realidade campesina, autênticos desconhecidos sem intenções de estabelecer relacionamentos. Estas discrepâncias mais aumentavam a nossa curiosidade e alongavam a espera até se fazer noite. Então, sem hora previamente marcada, o Largo começava a encher-se de gente ao redor de tapetes coloridos espalhados pelo chão onde alguns candeeiros atenuavam o escuro. Havia lugar para todos, simplesmente porque não havia lugares; de pé se assistia, do princípio ao fim, pois, se de pé se tinha trabalhado o dia inteiro não fazia sentido que outra posição se tivesse para a diversão. Contudo, os mais idosos, levavam um banco de casa para melhor suportarem as dores nas cruzes (costas). Se algum burburinho se gerava, era rapidamente abafado pela voz sonora do homem que, no meio da pista, categoricamente anunciava:
-"Senhoras e Senhores, Meninas e Meninos, o espectáculo vai começar"!
Mulheres, homens e garotada, enaltecidos pelo invulgar e honroso tratamento, de imediato se consciencializavam que a actuação prometia e merecia toda a atenção. Num instante, tudo se transformava: a música saía a jorros daqueles instrumentos aparatosos, dançarinas vestidas de tule pareciam borboletas, trapezistas e equilibristas exibiam números nunca vistos, contorcionistas dobravam o corpo como se não tivessem espinha ( coluna vertebral); na confusão de pernas e braços realçava-se a cabeça quando, com a boca, alcançavam uma flor que todos pensavam não ser possível… de caixas vazias saíam pombas, cartolas deitavam lenços e mais lenços que se uniam num só…cães saltavam de arco em arco! As palmas, batidas com força, aplaudiam calorosamente o melhor espectáculo que ali tinha vindo! Entretanto, entrava em cena o homem que deitava lume pela boca! Era a admiração total! A mulher encostada à tábua onde iam sendo espetadas tantas facas, fazia fechar os olhos aos menos corajosos!
Confirmavam-se as nossas suspeitas. Embora subíssemos às árvores, déssemos cambalhotas na erva e soubéssemos encontrar ninhos, jamais seriamos capazes de fazer tais habilidades!
Inesperadamente, os Saltimbancos reapareciam e, após mais algumas piruetas, aproximavam-se da assistência estendendo chapéus e boinas a fim de recolherem a recompensa do seu trabalho. As moedas iam caindo, brancas e pretas de acordo com a generosidade e posses de cada um. Nós, que já há algum tempo guardávamos na mão a moeda que nos tinha sido dada, íamos ao seu encontro como, se de algum modo, a quiséssemos transformar na nota que não podíamos dar.
Quando a excitação ia passando e as palmas iam perdendo força, surgiam os Palhaços para dar azo ( ensejo) à nossa admiração e fantasia! As cabeleiras farfalhudas ( vistosas, garridas), as caras pintadas e brilhantes onde os narizes redondos e vermelhos sobressaíam, as roupas multicores, os suspensórios, as luvas e os sapatos enormes…os nossos olhos eram pequenos para poderem abarcar tanto fascínio! Era irrelevante o que dissessem ou fizessem, bastava acompanhá-los com o olhar porque tudo neles tinha uma graça imanente que superava a nossa imaginação e nos transportava, sem nos darmos conta, ao mundo efémero do deslumbramento!

domingo, 1 de agosto de 2010

                                         Digna de contemplar
                                         Esta paisagem serrana.
                                        Nos cabeços, os penedos.
                                        No vale, a Ponte Romana.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Louceiro - Vendedor de louça de barro - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

Gostávamos de o ver chegar, com o burro carregado de objectos de barro embrulhados em palha. Escolhia um recanto da rua e espalhava pelo chão o que tinha para vender ou trocar: cântaros, potes, bacias, tigelas, alguidares, pratos, púcaros, bilhas, jarras, caçoilas de ir ao forno, canecas, assadeiras, fogareiros… os mais variados objectos que em barro grosseiro se possam conceber. Havia também, em menor número, algumas peças vidradas ( cobertas por uma substância vitrificável) que, por serem mais caras, nem valia a pena perguntar o preço. Entretanto, algum amigo o convidava para visitar a adega e, conversa puxa conversa, se falava da queima da geada, do limpar das oliveiras, de acontecimentos em povoações vizinhas. As mulheres, desejosas de substituir a loiça esborcelada ( com bordas partidas), mexiam, pegavam, viravam, num contacto agradável e pouco comum de manusear objectos domésticos que nunca foram utilizados,…e poisavam-nos à medida que iam fazendo contas à vida. Pensando bem, podiam-se remediar até à Feira da Santa Eufêmia onde, pela quantidade da oferta, tudo havia de ser mais barato. Viravam costas sem, muitas vezes, dar ouvidos ao chamamento do louceiro que, precisando de vender, se conformava a não ganhar nada, como ele dizia. Verificando que, desta forma, não fazia negócio, tinha como alternativa, trocar louça por géneros: ao aceitar batatas, feijão, milho ou melancias, ia entregando louça, a mais que não fosse para aliviar a carga do animal. Passados dois ou três dias, sem perspectivas de melhores transacções, decidia-se a arrumar a louça e a percorrer outras aldeias numa vida ambulante em que a sorte seria igual.
Nós, que ainda nem tínhamos dez anos de idade e apenas compreendíamos a objectividade das coisas, ficávamos a pensar que a vida seria assim: uns chegavam e partiam, outros ficavam para sempre…como nós, à espera da próxima vinda do louceiro.

sábado, 17 de julho de 2010

Vila Boa do Mondego - Casas - Foto Actual

    Imagens que falam por si
  Isentas de contestação.
   Atestam modos de vida
         Dos tempos que já lá vão...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Amola - Tesouras - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

Neste retorno ao passado, que o acto de escrever aviva mais, tornam-se presentes as vivências mais simples há muito adormecidas. Descrevê-las minuciosamente, de forma despretensiosa, permite galgar tempo e distância, voltar a ser criança e saborear o viver dos primeiros anos da nossa vida. Poder-se-á questionar a importância dos temas ou a pertinência dos factos, mas não os traços marcantes que ainda permanecem.
O Amola – Tesouras aparecia inesperadamente. A mesma indumentária coçada ( muito usada), larga e escura, o mesmo boné, os mesmos serviços.
Fazia-se anunciar pela gaita de beiços, num tom crescente e decrescente seguido do cantado pregão "amola tesouras e navalhas" que toda a gente identificava. Não tinha poiso certo; percorria as ruas deslocando a velha bicicleta onde estava montada a pedra de esmoril, que o pedal fazia rodar, bem como a caixa que armazenava o mais diversificado material: martelos, tesouras, alicates de pontas diferentes, arames, pregos, guarda - chuvas partidos, pedaços de panos velhos… e ia parando às portas de quem do seu ofício necessitava. Afiava tesouras, facas, navalhas, consertava guarda – chuvas substituindo varetas empenadas, colocando remendos ou um cabo novo.
Depressa dava a volta ao povo. Encostava a bicicleta, entrava na Taberna, mandava vir meio quartilho de vinho acabando por ali deixar os míseros tostões conseguidos. Quando o víamos partir, na direcção do Eirô, ouvíamos dizer aos mais entendidos que não tardaria a chover…

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Caldeireiro - Artesão / Conserteiro - Anos 50/60 - Vila Boa do Mondego

Aparecia na aldeia, de tempos a tempos, permanecendo alguns dias. Dirigia-se ao largo da Taberna do Sr. Pereira e aí assentava arraial, convicto de que podia pernoitar no pátio anexo. Descarregava do burro as ferramentas necessárias e, munindo-se de uma sertã ( frigideira larga, de pouco fundo) presa a um martelo, dava a volta à aldeia produzindo o som dos dois instrumento agitados com uma só mão. Em seguida, ia fazendo tempo na Taberna bebendo uns copos e contando novidades. Calmamente, junto do comprido banco de pedra, retirava dos sacos as parcas ferramentas inerentes ao seu trabalho a que nós, de pé, assistíamos. Aos poucos, começavam a aparecer alguns utensílios domésticos para remendar: cântaros, regadores, panelas e tachos, baldes, almotolias, candeeiros…que, com o uso, se tinham furado. Não arredávamos pé dali, ansiosos por vê-lo iniciar o trabalho. As brasas acesas na lata velha e negra iriam aquecer o ferro de soldar que, fazendo derreter a solda, pingo a pingo ia tapando todos os buracos. Por vezes, aparecia quem trouxesse um prato, uma travessa ou terrina em dois ou três bocados; o desgosto manifestado quer pela antiguidade quer pela utilidade, levavam o artesão a colocar “gatos” ( espécie de ganchos metálicos) nas rachas para reunir as partes quebradas. As peças de cerâmica ficavam como novas, prontas para durar outro tanto tempo.
Embora não tivesse muita apetência para conversar, nós fazíamos-lhe companhia observando cada movimento e por ali ficávamos até que o nosso nome se fazia ouvir, sinal de que devíamos regressar a casa. Para apaziguar os ânimos, contávamos quem tinha dado serviço, como este tinha sido realizado, como parecia impossível ter remendado tantos furos neste ou naquele regador, como as brasas se aguentavam tanto tempo…enfim, repetíamos o que era por demais sabido cada vez que o Caldeireiro, a troco de uns escassos escudos, saídos do nó da ponta do lenço das mãos, prolongava o uso das vasilhas já gastas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Estrada Nacional Nº 16 - Foto Actual - Vila Boa do Mondego

                                                  Sem grandes alterações
                                                  Na paisagem envolvente
                                                  Se vivem recordações
                                                  Do tempo de antigamente.