segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Vila Boa do Mondego ___Memórias ___Anos cinquenta



Comunidade rural, com uma estrutura sócio-económica constituída por pequenos agricultores em terras próprias ou arrendadas. Podemos ainda incluir os assalariados, de forma temporária, e os que cultivavam as terras de meias (produto obtido dividido em partes iguais para o dono e para si) ou de terças (ficando duas partes para o dono da terra e uma para o cultivador).

Da terra tudo provinha: o trabalho, o descanso, o sustento, a harmonia, a inquietação, as rivalidades, os interesses, os desentendimentos familiares… porque todos eram camponeses ou pastores, sendo a agricultura e a pastorícia as únicas actividades económicas existentes na década de cinquenta.
As duas margens da ribeira, em pequenas parcelas de terreno, eram escrupulosamente cultivadas e todas as primaveras se vestiam de tonalidades de verde, de acordo com a sementeira da batata, do milho, do feijão e das courelas das couves e dos nabos… a ribeira, ladeada de amieiros, era a razão de ser daquela área de cultivo por excelência. Abastecia os poços de engenho que a maioria das fazendas (terrenos de cultivo) possuía, onde burros ou cavalos, à custa de consecutivas voltas circulares, faziam mover os alcatruzes que despejavam a água que, com algum saber, era conduzida, com um sacho, por sulcos cada vez mais estreitos de forma a irrigar toda a plantação. A rega era um trabalho agradável, refrescante por ser no tempo quente e por se fazer descalço…o pior era quando o animal parava por estar cansado ou tonto, se bem que andasse de cabeça tapada, e era preciso tocá-lo…normalmente éramos nós, os mais pequenos, que também tínhamos tarefas a desempenhar.
Feitas estas colheitas, os mesmos campos, num verde mais uniforme, serviam de pasta gem para os rebanhos no período de Inverno. E era lindo de ver aquelas manchas brancas e fofas calmamente espalhadas naquele tapete esverdeado! O Chão da Cruz, a Salgada, o Chão do Moinho, o Chão do Cano, o Chão da Ponte, o Chão da Nogueira e outros chãos produtivos à custa de um trabalho persistente e alheio aos rigores do tempo.
Havia ainda, numa zona sobranceira à aldeia, perdidos entre pinhais densos e abundantes, outros pequenos campos de cultivo que subsistiam graças a nascentes cuja água se deixava acumular para ser utilizada periodicamente. Era comum ouvir dizer: “fui deitar a água à Ladeira, às Poças, ao Cabecinho, ao Chão do Poço, ao S.Martinho ao Chão da Cancela…
Tratava-se de uma agricultura de subsistência da qual, em anos mais produtivos, a venda da batata poderia reverter em algum rendimento. Convinha, para tal, que a semente fosse nova e, de preferência, vinda de Montalegre como se dizia.
A área florestal, constituída essencialmente por pinheiro bravo, era a perder de vista. Os madeireiros e os resineiros sabiam localizar o Pendão,o Moirelo, o Vale de Grou e as Alvagadas. E, quando era necessário fazer a contagem das bicas (pinheiros sangrados para extrair resina) ou apanhar míscaros (espécie de cogumelo), havia algumas precauções a tomar relacionadas com a distância, o isolamento, a desorientação e o anoitecer precoce naquelas paragens.

A produção de queijo constituía, em pequena escala, uma fonte de receita proveniente dos mercados de Celorico da Beira e Fornos de Algodres onde os queijeiros (compradores de queijo) conseguiam negociar, a seu jeito, o resultado de uma labuta árdua e artesanal. Curiosamente, o queijo não fazia parte dos hábitos alimentares de então: quem o tinha vendia-o; quem o não tinha, não o comprava…só o cheiro intenso perdurava…
Excepcionalmente, em dias assinalados, como a Páscoa ou aquando de alguma visita vinda de fora, se comeria ou daria a comer, duro, bem duro para render mais…
_ «Ó mãe, pão com queijo é tão bom!
_ Comeste, meu filho?
_ Não, mas vi comer!

Mas, o soro (parte aquosa que se separa do leite depois de coalhado), fervido numa caldeira em cima da trempe, sobre o lume, era uma delícia! Isso sim, fazia parte da alimentação e, com uns pedaços de pão e umas colheres de açúcar, era uma refeição completa.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Memórias de infância

São vivências ...
páginas gravadas
num colorido suave
que o tempo faz avivar!
Aumenta a tonalidade
e vem a saudade...

A nossa identidade está implicitamente ligada à terra onde nascemos e crescemos, de uma forma completamente aleatória à nossa vontade. Considerando-nos, ou não, cidadãos do mundo,numa conjuntura actual de sociedade,o certo é que permanecemos associados a um nome de cidade, vila,aldeia ou lugar que, oficialmente, consta da nossa identificação.
Podemos correr mundo,temporária ou definitivamente, que levaremos connosco um historial que sustentará toda a nossa vida.
Apraz-me pensar na minha pequena aldeia. Nos meus tempos de menina em que ia acumulando saberes do quotidiano rural numa envolvência saudável com todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, viviam em ambiente comunitário.
São evidentes os progressos que, actualmente, podemos constatar e, substancialmente,contribuíram para melhorar as condições de vida de quem lá permanece.
No entanto,é o viver de há meio século que perdura no meu pensamento e presumo interessante num contexto geográfico, social,religioso, económico e político.
Situada no sopé da Serra da Estrela, Vila Boa do Mondego é a minha terra natal que, por ser a minha, é diferente e especial nos meus afectos e no meu sentir.
São relatos da minha infância que gostaria de partilhar com todos os que, independentemente do lugar onde se encontrem, possam identificar esta aldeia como sendo a sua.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O poder do tempo

A vida é feita de tempo. E, como alguém disse, há sempre um tempo para tudo.

Gastamos uma grande parte da nossa vida a fazer o que tem que ser feito independentemente da nossa vontade e circunstâncias ! E o tempo vai passando...


À luz deste pensamento, decidi reservar um pouco de tempo só para mim .

Assim, encontro-me a escrever utilizando um meio que, de todo, me é desconhecido pois é a primeira vez que o faço.


Espero fazer progressos e conseguir partilhar com alguém assuntos,ideias, experiências e tudo o mais que o TEMPO tem operado em mim.

O tema é pertinente, mas serve de justificação à minha iniciação no grande mundo da tecnologia.